197.

Um bom jogo refaz a inocência jamais perdida.

196. Alguma epígrafe. O amor. (VI)

“- Quando nossa prótese souber tudo, absolutamente tudo, o que devemos aprender ainda?
- A arte da síntese.
- Sim, e o próprio ato de aprender.” Umberto Eco e Jean-Claude Carrière.

195.

Ironia: a rima em outro plano.

194.

Se ali, onde nasce a possibilidade do erro, é que mais cremos dele nos proteger.

193. Estudando a crônica

Censurava-se: “Perigo!”
Agora afinamos: “Excesso.”

192.

O gregário: talvez um bom fazer, por certo um mau pensar.

191.

Uma epígrafe serve de máscara, apenas.

190.

Certos livros constrangem o leitor, se abertos na rua: como os muito codificados, ou em outros idiomas, os que atiçam rebeldias ainda possíveis, ou, ainda, determinados catataus. Outros, é incrível que pareçam tão adequados: os de gênero policial, os que dão comandos para fanatismos lícitos, ou nos quais (eles dizem) reconhecemos o Autor, os que fazem migrar para mundos longínquos.

189.

Primeira filosofia: não temer filósofo.

188.

A máscara me veste.

187.

Há (deve haver) todo o tempo do mundo para escrever um livro ruim. Por que não dar a atenção que ele merece?

186.

Quem se entrega a uma arte aspira a se sentir em casa. Mal espera o dia em que será dominado por ela. Como imagina que uma casa o domine: mas logo vêm a poeira, os resíduos. E de novo o desalinho, cabelos no chão, odores ruins. E trabalhar sem fim sobre o finito. A grande paz não tem a ver com sentir-se em casa. Nem em pensamento...

185. Isto não é uma carta (IV)

Um ponto de interrogação, à margem do texto, quer dizer: “Eu não aprendi assim.”

184. O animal literário (IV)

“Coais um anexim mas engolis uma biblioteca!”

183. Tiradas (IV)

Agnes Heller: “Nem um só valor conquistado pela humanidade se perde de modo absoluto; tem havido, continua a haver e haverá sempre ressurreição. Chamaria a isso de invencibilidade da substância humana, a qual só pode sucumbir com a própria humanidade, com a história.” De qualquer posto, em qualquer tempo, a qualquer paga, alguém alegaria. Jamais com Kafka: “Há esperança o bastante, esperança infinita – não para nós.” Não apenas para nós.

182.

Profundidade: da voz humana, na língua materna.

181. O animal literário (III)

Sim, a tranqüilidade recolhe paixões, e por elas vive inquieta e interessada.

180. Bordões (XXIV)

“Deixemos de lado, por um momento...” Deixe que o tempo cuide. Como em culinária, geralmente, é o que interessa.

179. Bordões (XXIII)

“Rebelde sem causa”. Uma liberdade livre não tem nenhuma causa.

178.

Sim, palavra e coisa se casam. É como em todo casamento.

177. Bordões (XXII)

“Liberdade total, só na arte”. Último refúgio de tiranos.

176. Estudando a crônica

São semelhantes os slogans da Livraria Cultura e da Gazeta Mercantil: Ler para Ser.

175.

- O eu é falado.
- És Hume.

174.

Sonho por sonho, sejamos realistas: diante dos fatos, sejamos anarquistas.

173.

Humor, arte de morrer.

172.

Os loucos são como os outros pois são como os cães.

171.

Ser e parecer são coisas diferentes mas em nada parecem diferir.

170. Bordões (XXI)

“Curiosamente...” Nenhum paradoxo. É curioso existir entre os fatos.

169.

A memória se parece com o cão que se parece com seu dono.

168. Bordões (XX)

“Portanto algo novo há de vir”. Do profeta infalível.

167.

Se nada aprendemos com a história, o que aprenderíamos com os jornais?

165. Isto não é uma carta (III)

Como falar sem a força de terceiros, sem remeter (não a partir de certo estado: falar em movimento, sem orgulho ou transe), no trato intermitente: manejo de um eu multiplicando-se em eus de nome idêntico, adensando o texto por acúmulos, trocas, cortes, flexões, deslocamentos, combinatória de ritmo e sentido, dramas que se chamam à edição: explicando a pobreza do que se imprime e de quem, para só por acaso fazer algo diverso de súmula, inventário, bordão, palavra de ordem, manchete, slogan, letra morta, legiferação, moral da história, etc.

164.

“Antibrindes ao fast-thinker”.

163. Bordões (XIX)

“Tudo é ficção.” Espécie de hipocondria.

162.

Ulisses era iscado, quando transpôs a armadilha do gosto.

161.

Mote preferido: teu dia.

160.

Liberdade, um outro.

159. Alguma epígrafe. O amor. (V)

“O estilo não é o homem, é o alimento.” Camilo Castelo Branco.

158.

Insight: não vale um trocadilho.

157.

O sentido oculto desta frase se revela ao leitor dissimulado.

156.

Salgar com perguntas que só um idiota faria.

155.

Memória, potência de invenção.

154. Estudando a crônica

No museu da língua. Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas essa moldura pink...

153.

– Não sei. É preciso ler e reler e reler...
Ecce lector!

152. Alguma epígrafe. O amor. (IV)

“Um escritor que não ensina a outros escritores não ensina a ninguém”. Walter Benjamin.

151.

“Da educação por burilar”.

150. (em tempo real)

Se queres captar os pendores do tempo, ouve o que os espertos dizem do passado.

149.

De certos livros na ilha. Não velhos navios que pirateiam as almas, pois na ilha estou em paz. Ou em tédio? Postem-me os bárbaros.

148. Bordões (XVIII)

“Não volto às minhas obras.” Plausível! Amar as que intrigam o fazedor já como ofertas do mundo.

147. Bordões (XVII)

“Se conto esta idéia, me roubam.” Duas vezes fixa. Se ela não cede à tua movência diária, foi sempre uma roubada.

146. Bordões (XVI)

“O livro é um objeto de resistência espiritual.” Cruzada que sucede à tonelada de celulose, ao hectalitro da tinta, aos honorários do scooter, ao minuto-disciplina do ex-amanuense, à performance em gazetas mercantis, ao metro quadrado livreiro, à bolsa produtiva em servidão de passagem, ao livre à brûler bienal, a como falar do objeto que sequer se abriu, sim, objeto a resistir.

145.

“Da brecha sem poder”.

144.

Eu, homônimo.

143.

― Para que serve?
― Causar dúvida.

142.

Em termos que nada significam: lúcido, estranho, “para bem e para mal”.

141. Bordões (XV)

“Não fica bem citar a si mesmo”. Há quem prefira ventríloquos.

140.

O gosto, abominável.

139. Estudando a crônica

Lições do século. De tornar-se a rebeldia acaciana, a vanguarda turismo, o super-homem canalha. A discutir se por ambivalência, paralaxe, redescrição.

138.

A platéia levada a sério faz commedia dell'arte.

137.

Acaso é música.

136. Bordões (XIV)

“Quem ama não o estuda”. – Ok, você fica com o resto.

135. Bordões (XIII)

“Só pode falar quem foi lá”. Empirista dá cabo à história.

134.

Agora é o lugar de todas as obsessões.

133.

Dado o tão pouco que há em vista, há sempre muito mais do inusitado por fazer.

132.

Nomear as táticas ex arte, com aquela ênfase de calar proibições.

131. Isto não é uma carta (II)

Não haver literatura para esta tela, se querem uns, é seu projeto apenas. Avisam pleitear outro sítio, assim nobilitado. O tempo de compor, o de ler, a disposição para a página infinita, o decoro das superfícies, a atitude intermitente da compreensão exigem melhor estratégia que simples marketing. Quem desatina nisso escreve aqui tão mal quanto é lícito pagar com luxo poesia ruim.

130. Bordões (XII)

“Quais são as paixões desse crítico?” – As da indiferença.

129. Bordões (XI)

“Cada povo tem o governo que merece”. Barbaridade.

128.

A que se referem os que não referem?

127.

O traço forte do camaleão é sua timidez.

126. Bordões (X)

“Ótimo texto, no estilo do seu objeto”. Estudar a mudez e o calão.

125.

Um momento presente como prova dos nove.

124. Alguma epígrafe. O amor. (III)

“O macaco está para o homem assim como o homem está para x”. Guimarães Rosa.

123. Bordões (IX)

“O fato de duas pessoas se comunicarem já é um milagre”. Para quem anda obcecado na entropia, a marca de acidentes no trânsito e defenestrações é mesmo tímida.

122.

Em arte e pensamento, qualquer profecia é desde então projeto.

121.

Outra disciplina sempre recende um pouco a perfumaria. Os que intervêm como não-especialistas reclamam suavemente o papel dos antigos legisladores, exóticos. Valéry: “As convicções são ingênuas e secretamente assassinas” (Discurso sobre a história). Arendt: “(o leigo tem) a oportunidade, proporcionada pelo fato da crise – que dilacera fachadas e oblitera preconceitos – de explorar e investigar a essência da questão em tudo aquilo que foi posto a nu (...)” (Crise da educação). O especialista espera o bárbaro como à lei perdida, quando a atmosfera o saturou. Como quem perdeu o faro do alimento por gosto de salivar e deseja um depurativo, uma inspiração.

120. Bordões (VIII)

“Não cito nomes para evitar constrangimentos inúteis”. Deve escrever como o remetente da mensagem kafkiana.

119.

“De liberdades triviais”.

118.

Se envolvidos no presente, não nos cabe ser avant nem garde.

117.

Eu me gizo.

116.

Módulo de um romance analítico: era uma vez que lia nas piadas o sincero e vice-versa.

115.

Módulo de um romance realista: à força de ser honesto, observa a realidade dos teus mistérios.

114.

A um syntaxier, falhas que falem.

113. Isto não é uma carta (I)

Quando encontrar a sabedoria, por favor, não me chateie.

112.

O pronome, essa bacante Beatriz.

111. (em tempo real)

Programa para uma história agora: suspensão do traço épico: o milagre, a loa, o privilégio.

110.

― Cito o autor, não o homem.
― Você homem que o diz.
― O homem não crê no autor.
― Autor invenção de homem?
― Autora invenção.

109.

Treze nomes da incerteza: a abstenção, a loquacidade, quem sabe, o impasse, a hipótese, a exceção, certo, (...), atrevo-me, o presente, com humor, com horror, com cuidado.

108.

É sem avesso o aforismo moebiusiano.

107. Alguma epígrafe. O amor. (II)

O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.” Mário Quintana.

106.

“Da bobagem não como um fim”.

105. Tiradas (III)

De Harold Bloom: “Essa J é ficção minha, muitos exegetas bíblicos insistirão, mas então cada um de nós carrega consigo um Shakespeare, um Tolstoi ou um Freud que é também sua própria ficção”. Ad hoc (do tipo tudo posso).

104.

Fora da paisagem, poetas medianos podem ficar bons. O ordinário de antigas falas são em livro como, em tela, os músculos treinados de um pintor.

103.

Pode-se escrever, mais que viver, sem medo ou esperança.

102.

Desconstrução da autoridade: autoridade da desconstrução.

101.

O uróboro ironiza a ironia de um uróboro.

100.

Um trabalho de fazer o pensar acidente.

99.

Pintar a passagem aí não é menos possível que pintar passagens idas.

98. O animal literário (II)

De palavra e paixão, que se desprezam e se animam.

97. Bordões (VII)

“Autor bom é autor morto”. Cuja vida se quer penetrar como obra finda. Cuja língua se quer dominar como um ser de nexo.

96.

“Das elipses ipsis litteris”.

95.

A esperança depois da catarse, uma nova contaminação.

94. Alguma epígrafe. O amor. (I)

“O que tenho a dizer não é difícil, nem polêmico. O único mérito que gostaria de reivindicar para esta exposição é o fato de ser verdadeira, pelo menos em parte.” John L. Austin.

93. Estudando a crônica

Brasileiros somos únicos em xingar conterrâneos com o próprio gentílico. Em geral, por ignorância do estrangeiro. Mas veja: é o que acabo de fazer.

92.

O rito sem dogma: o dogma sem rito.

91. (em tempo real)

Programa para um futuro agora: simultaneidade do amor desesperado à história.

90.

As janelas do relativismo se fecham cada vez que rebatendo a verdade em si temos de rebater uma mentira.

89.

Não seria preciso dizer mais que o óbvio. Mas com que palavras?

88.

“O difícil, sem o auxílio da estatística, é separar o joio do trigo. (...) É impossível estudar filosofia se você não sabe ler. Essas aulas serão apenas uma maneira mais escancarada de se praticar o doutrinamento do marxismo rastaquera que impera em nossas escolas” - do economista xis, dito especialista em educação, cujo nome poupo. Que estatística não nomeia para só então quantificar o joio e o trigo? Baratear o pensamento hoje é de total liquidez. Já deduzir um ismo do mero pensamento só pode ser veneno. Evidente que números em si não estão cheios de intenção, boa nem má. Contudo, dizer que “todo o mundo físico é traduzível em números, com acuidade muito maior do que a descrição feita por palavras” (o que tem algum valor) é capaz de blindar interesses nada agudos com números sempre difíceis de traduzir. À guisa de esclarecimento, regateia a palavra, que faz o seu número possível, na arena onde devia esperar refutação. Sorte que economistas, bons e ruins, discordam também entre si. Não quanto ao elementar: as cifras, como nós e esse falamos português. Para que possamos nos opor: ler que “tudo se resolve na estatística”, tanto quanto “a dialética da história”, aporta o mesmo ideal religioso de onisciência divina.

87.

Evolução: leva dez em história natural e na quarta-feira de cinzas.

86.

Como se escreve pra valer a quem nasceu ontem pra ler?

85.

“Dos clichês vacinados”.

84.

Também não se olha duas vezes a mesma fotografia.

83.

Bula para um conto: não aplicar mais do que um ao dia.

82.

Quais são os argumentos do amor?

81.

Tantos variados caos quantas ordens acordem nos seus partênteses.

80. Bordões (VI)

“A obra de arte fala por si”. Um dia com isso aquietaremos as crianças, como nas fábulas do tempo em que os bichos falavam. Esse positivismo das coisas do afeto. Como se apagam nomes dos servos de um grande senhor, a quem certamente não supunham servir.

79.

As iconografias pessoais são como aqueles sonhos recalcitrantes do já vivido a olho aberto.

78.

“Da ironia em pétalas”.

77.

Qual biblioteca representa mais sábio conselho: vários livros sobre um bom tema ou bons livros sobre vários temas?

76. Tiradas (II)

De Kant: “Os exemplos são como muletas que não podem ser descartadas por quem não tem o talento natural para o juízo”. Ad hoc (do tipo pedante).

75.

Bula para um romance: não administrar sem ao menos uma noite de intervalo.

74.

A violência, para o naturalismo, é sua aparição do deus.

73. Literatura e felicidade (X)

A literatura que imitasse a felicidade talvez não fosse verossímil, quem sabe sequer literária.

72. Bordões (V)

“Tenho um lado espiritual independente de religião”. Como um lado pornográfico independente de sexo?

71.

Inatismo: só verificável em robótica.

70. Tiradas (I)

De Carl Jung: “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou”. Ad hoc (do tipo pleno).

69.

O cinema, como a quântica, uma espécie de metempsicose que se imagina laica.

68.

Cada geração parece dar-se ao trabalho, pela primeira vez, de roubar o fogo, abrir a caixa de Pandora, decair à idade do ferro, experimentar o fruto da árvore do bem e do mal, fazer a má escolha, habitar o sensível que arremeda o ideal e, a certa altura, perguntar-se ubi sunt as maravilhas de uma aurea aetas perdida, para que cada tempo pareça inteiramente novo em suas corrupções e na miséria.

67.

Contar com a memória é se esquecer da história.

66.

Os pensadores do pragmatismo descuidam que o fato de terem boas intenções escapa a todo o instrumental que afirmam. Não podem justificar seu trabalho apenas pelo rito, embora se digam praticamente sem dogma. Têm uma finalidade implícita e uma declaração de meios, a segunda negando existência à primeira. Fazem do seu arsenal a divisa, para não confessarem que têm um ideal. E deram um nome horrível para o seu clã.

65.

No intervalo entre isso e isto há mais afeto que lógica.

64.

Uma coisa qualquer, em jogo, se torna séria. A seriedade, em jogo, uma coisa qualquer.

63.

Há truísmos e truísmos.

62. Bordões (IV)

“A verdade está na eficácia”. Prove alguma hipótese que não pergunte apenas pela eficácia. Como no equívoco da estatística. O que é: teria que ser? A lógica do uso não é o único lugar provável.

61.

Equívoco: indiscriminar as vozes. Equivocar-se: indiscriminar a própria voz.

60.

O sentido literal desta frase acusa o leitor preguiçoso.

59.

“Das tautologias férteis”.

58.

Fazer de improviso não é da primeira vez. Nossa desprevenção requer hábito, métodos.

57.

Só um problema grave ao suicida filósofo: a sua filosofia.

56.

Nossos pais, que eram modernos, ensinaram parricídio.

55.

Curiosidade extrapola uso. É nossa alegria no seu fracasso. Mas, como ele, não pode transcender o habitável.

54.

Um trabalho de fazer o acidente pensar.

53.

Fixar artifícios de intervir sobre uma veracidade ainda é um jeito de se fazer carismático.

52. Bordões (III)

“Por instinto”. Petição de princípio. Atribuir jurisdição à natureza para advogar em causa própria.

51.

“Da realidade de um paradoxo”.

50.

Eu, metáfora.

49.

O fragmento não guarda o seu universo: ao dizer do fragmento um universo, ele faz do universo um fragmento.

48. Bordões (II)

“Antigamente era melhor”. Não daria no que deu. Não se repetiria desde sempre, em perigo.

47.

Memórias do presente: aqui, agora, assim.

46. Literatura e felicidade (IX)

Não que a busca da felicidade defina o literário, mas se põe nele como tema fundador. Ela está na sua pele e no seu horizonte. Porque essa busca figura seus gestos na letra, enquanto faz dela um meio seu.

45. Literatura e felicidade (VIII)

São igualmente limitadas e ilimitadas por sua condição de ensaio.

44. Literatura e felicidade (VII)

Suscitam nuvens de verbosidade em redor do silêncio para o qual se inclinam.

43.

Produzir hiatos, confiando ao outro a tarefa do ritmo.

42.

No espaço, mais tempos do que em tempo, espaços.

41.

A ambigüidade tem o seu valor.

40.

Meus assuntos: metáfora.

39.

O tipo ideal não tem consistência.

38.

O direito se equivoca ao pressupor que apenas um dos lados pode ter razão.

37.

É preciso método contra o método.

36.

A palavra nós deve ser irônica.

35.

Imanência: se as coisas fossem renascer idênticas, uma vez destruídas.

34.

Pensar junto: sofrer o outro.

33.

Toda a obra de Platão é sobre a morte de Sócrates.

32.

23.04.2008. Juiz federal concede liberdade provisória a hackers, sob a condição de lerem uma lista de clássicos como Augusto Matraga e Vidas Secas. Aqui se misturam os ingredientes do mito que leva do iluminismo à crise da educação. Da poesia liberdade provisória ao seu status de penitência. Como se ela fosse, algo em si, apologia de moralidade. Quando nem apologias de moralidade ex cathedra são fonte incontroversa de boa conduta. George Steiner, o crítico: “Nem a grande leitura, nem a música, nem a arte puderam impedir a barbárie total. E foram até, muitas vezes, um adorno dessa barbárie” (A barbárie da ignorância). Marcola, o traficante: “Eu leio, li três mil livros e leio Dante... mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país” (O Globo). Graciliano, intimado pelo juiz, tinha julgado a ficção atrevimento: “Restava saber se era exeqüível uma aparência de realidade isenta da matéria que nos cai debaixo dos sentidos” (Memórias do Cárcere).

31.

A poesia, não anti-cotidiana, mas anti-obtusa.

30.

Não mudei de idéia: a idéia mudou de mim.

29. O animal literário (I)

Como animais que praticam literatura, somos animais literariamente inventados.

28.

Afirmar o jogo da arte em sua extra-cotidianeidade tem algo de estéril. Mais digno é relacioná-lo ao cotidiano, como peça no quebra-cabeça dos trabalhos humanos. Todos eles só fazem sentido aí. O brilho de ritos como festas, sagrações, purificações, manifestações, só pode aparecer no contraste de uma rotina escura, cuja perspectiva justifica e é justificada em seus jogos sem êxtase ou ápices de sentido.

27.

Nós sublimaremos a história.

26.

Não há diferença entre um almanaque e um tratado quanto ao sentido que ambos podem dar às coisas, apenas quanto ao modo de argumentar por elas.

25.

O tempo, sofrimento do espaço.

24. Literatura e felicidade (VI)

Não têm outro lugar além ou aquém do arbítrio humano.

23. Literatura e felicidade (V)

Fazem aludir a resquícios do divino.

22. Literatura e felicidade (IV)

São dotadas de autonomia no difuso instante da morte de Deus – mas não estritamente na condição de acontecimentos (ou esperança de acontecimentos) privados: já descolados de toda concentricidade, são idéias desorbitadas e flutuantes, inimitáveis e carentes de se inventar.

21.

Não é milagre ser homem.

20.

Treze nomes do presente: o óbvio, a surpresa, a arena, a platéia, a simultaneidade, a saída, a prontidão, a incerteza, o ato, a reflexão, a presença, a ausência, o nome.

19.

Se o narcolirismo tomar o poder, um poeta inventa gramática.

18.

O dadaísta. Quem menos destruiu a tradição ao se justificar como destruidor.

17.

Qualquer piada é interna.

16.

Ensaiar, arte da atualidade. Daí não possa haver uma arte de ensaiar.

15. Literatura e felicidade (III)

Não são propriamente o prazer (ou o gozo) que a um tempo as anuncia e é promessa de ambas.

14.

Da obra de arte como suicídio.

13.

Quero o disperso. Mas esse querer concentra.

12.

Hamlet agora poderia dizer: Estar ou não estar? A questão mais nobre...

11.

É sensível a falta de preposições em português.

10.

Esse fascínio de ter uma experiência direta do passado, essa impressão de ter vivido no Egito, na Belle Époque, na Itália medieval, esse desejo de justiça quanto aos mundos históricos e seus cotidianos, quanto aos modos corretos de reabitá-los, isso (não) é coisa do cinema.

9. Bordões (I)

"O presente ainda não é história". Se a história se imprimisse espontaneamente, body art, só visível depois de passar. Se olhar o próprio tempo fosse a olho nu, sem mediações por estar próximo demais. Se cada coisa fosse um ponto sempre fixo num quadro de Seurat, unido aos demais pontos numa massa acidental, olhando algo mais da galeria, e nunca para o quadro onde ela está.

8.

A política habita o presente, mas presente não se limita ao político. Se for a pura batalha, é que se espera um futuro como vitória, fracasso ou dissolução, que lhe dê sentido. Tempo que se poderia orientar... Se igualamos presente a política, separamos ação e palavra, reservando à primeira uma temporalidade que é mero rito e não, também, o fazer sentido.

7.

Milagre é uma estratégia retórica.

6.

Educar como aprender que o leitor precisa resistir a nós e negar nossa figura. Como leitores, aprender que nos educam resistindo a nós e negando nossa figura. Educar: não preparar a história dos atos futuros, mas resistir à formação presente.

5.

A intimidade seria insuportável para nós. Isto não é uma carta. Não ser uma carta é o começo do exercício literário - a literatura não suporta as coisas banais da intimidade? E não seriam estas as menos fúteis? Por isso a necessidade de falar do silêncio, ou pelo silêncio, ou de procurar tocá-lo.

4. Literatura e felicidade (II)

Elas nos são vendidas antes de suas “obras”.

3. Literatura e felicidade (I)

Parecem supor a sabedoria; persegui-las se parece com a loucura.

2.

Todos os tempos verbais são conjugados no presente.

1.

A história nos sublimará.